
De visita ao parlamento. demasiada opulência para ter piada, mas a escadaria é bonita, impressiona qualquer bimbo como eu. foi a primeira e única visita guiada forçada que fizemos, mas ao fim ao cabo valeu a pena. Dizemos à senhora da bilheteira: “queremos dois bilhetes para agora, para a visita em inglês”. E ela: “Tem uma visita em espanhol daqui a 15 minutos”. “Queremos para a visita em inglês”. “Tem em espanhol daqui a 15 minutos.” “Queremos em inglês.” O guia era um típico guia deste tipo de visitas guiadas. uma seca. monocórdico, o discurso saía todo de rajada, sem uma única oscilação de entoação. O homem dava a entender que já tinha feito aquilo tantas vezes, que só podia ter surpresas durante o seu dia de trabalho se o yeti lhe saltasse ao caminho e lhe arrancasse o pescoço à dentada. e mesmo assim. as próprias piadas de algibeira eram levadas na torrente monocórdica; já não havia sequer a preocupação de timings. só se percebia que era uma piada, porque ele se ria no fim, a fazer as vezes de gargalhada enlatada. e as pessoas riam-se, essa é que é a parte fixe. nada como uma boa gargalhada enlatada para provocar o riso. o pessoal das sitcoms sabe o que faz. é pavloviano. ou ivanoviano. ou assim do género. zubizevanoviano. mas não era este O cromo de budapeste.
os americanos. netinho e avó.
ela toda pintada. típica americana exuberante. estilo velha californiana ou floridiana carmen miranda. unhas pintadas de cor berrante. cores vivas por todo o lado. muita quinquilharia. um festival ambulante.
muito se extrovertia ela. muito comunicava. extravasava emoções. toda ela era alegria de comoção. parecia que estava num constante choro de felicidade. devia estar de volta à europa coitadita, depois da grande viagem que fez em pequenininha para a terra das oportunidades com a família – que só levava meio mel-rei no bolso e um quintal de barricas de aveiro.
já o neto era viscoso, sempre a querer agradar à avó, mas tudo a soar a falso, a nojo. estava sempre armado em esperto, em aluno bem comportado, constantemente a opinar e a fazer perguntas interessadas ao guia. mas não dava uma para a caixa. enterrava-se a cada pergunta de regurgitante curiosidade. geralmente o guia respondia o oposto do que ele tinha sugerido.
30 e poucos anos. feições bonitinhas. olhinho azul. ar de quem engata todas as gajas giras com coeficiente de inteligência abaixo de 14. é um parasita. nunca fez nada por iniciativa própria, porque teve sempre alguém que fizesse por ele. e já não sabe como fazê-lo. é aqui que entra a avó.
estava sempre pronto a responder às solicitações da senhora, fosse por via oral fosse pelo tacto. ela exprimia o seu fascínio pelas riquezas patrimoniais ou pelo declínio da Europa e o netinho prontamente respondia com qualquer coisa de suposta pertinência para qualquer tertúlia intelectual. era mau demais para ser genuíno.
Já dentro da sala do parlamento, depois de o guia pôr o botão no play e discorrer sobre as mil e uma maravilhas do parlamento húngaro e dos feitos magiares, a senhora não se contém, carrega no pause do guia e, qual erupção de lava, cospe todo o seu amor e deslumbramento por aquele lugar, dizendo que era das coisas mais bonitas que já tinha visto e que grande riqueza que aquilo era e que era difícil encontrar qualquer coisa parecida no resto do mundo e era importante que as pessoas percebessem o valor de uma coisa assim, que era preciso portanto conservar. tudo isto com uma emoção tal nas palavras que – sem ponta de ironia – me impressionou. não é que não fosse previsível, mas é sempre um espectáculo impressionante, para o bem ou para o mal. mas eis que oportunamente, e para rematar esta cena memorável, o netinho desliza o seu braço pelo ombro da avó e deixa-o lá pousado, após solene silêncio. como quem diz: “estiveste bem, avozinha.” foi um bonito gesto de cumplicidade familiar. eu, pela minha parte, tive uma reacção de nojo visceral tal, que só queria que me apontassem a saída de emergência. foi das manifestações de afectividade pública mais artificiais que já vi. “bring me a bucket to throw up”, Meaning of Life dixit.
nada mais na visita conseguiu ofuscar a qualidade daquele momento.
devo dizer que simpatizei com a avó. uma velha gaiteira, que respirava vida e de sentimento genuíno. mal sabe o neto que tem. ou se calhar até sabe. desejo-lhe um resto de vida positivo. já o netinho, meu Santo Deus, haja incineração. se eu fosse imperador romano, o meu polegar virava-se para baixo.
Posto Escrito: gosto muito desta foto. tem qualquer coisa de poético, qualquer coisa de, como direi, imperceptível.
para quem não percebeu é a escadaria do parlamento. está ali uma coisa pomposa. uma coisa como deve à ser. a própria sissi já passou por aqui. ou então não. aliás, a sissi continua muito viva no imaginário daquela gente. será que este pessoal não cresce? perdoem-me a ruindade, sei que poderei ser desagradável, ou mesmo deselegante, dirão alguns, especialmente para os milhões de austro-húngaros a viver em portugal e que visitam o meu blog a título póstumo, mas eu e o meu amigo hugo – rapaz de real fineza e categoria – inventámos um nome de filme que pensamos estar à altura dessa divindade que foi a sissi. Podia ser “Sissi das meias altas”, mas não, não é, não enveredamos por esse estilo de ordinarice, é “Sissi, a imperatriz do anal”. bem me parecia que iam achar pouco pujante. para a próxima tentaremos melhor.
“This must be one of the most beautiful parliaments in Europe!” “yeah, gran’ma, it sure is. It’s the most beautiful thing I’ve ever seen!”